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PARIS

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PARIS 

De alguns anos para cá, graças a uma tecnologia a que o engenheiro Gustavo Eiffel não teve acesso ao erguer sua estrutura em forma de foguete, cada visitante tem a possibilidade de saber que número ocupa na interminável seqüência de turistas que galgam a Torre Eiffel. Um contador digital informa, impiedoso, que posição você tem na ordem das coisas. Eu, por exemplo, fui premiado com a seqüência 162 352 439, ou seja, fui o centésimo sexagésimo segundo milionésimo, tricentésimo qüinquagésimo segundo milésimo, quadricentésimo trigésimo nono ser humano a alcançar, oficialmente, o segundo patamar da torre. O que, a não ser como palpite para fazer uma fezinha no paratodos, é uma informação absolutamente inútil. De todo modo, ela tem o mérito de lembrá-lo, especialmente se você está prestes a escrever qualquer coisa sobre a cidade, que Paris é, de longe, a capital mais escarafunchada por autores de todo o planeta, por meio de textos, fotos, ilustrações, filmes, quadros ou qualquer outra base de registro. Ou seja: pretender mostrá-la por um ângulo novo é uma presunção tão notável quanto afirmar, por exemplo, que o vinho do simpático município de São Roque, em São Paulo, é melhor do que o da Borgonha, que todos bebem por aqui.

O que parece claro, porém, é que existem tantas Paris quantos seres que tiveram a ventura de visitá-la. Faça o seu próprio teste. Informe aos amigos que você está de partida para a capital da França e peça algumas dicas sobre a cidade. Provavelmente você vai receber diversas listas sem nenhum ponto de intersecção. Cada pessoa que já esteve por aqui tem uma Paris diferente na cabeça. Um bairro preferido, uma relação de lugares imperdíveis que ninguém conhece ("Essa é só para você! Turista nenhum esteve lá!"), uma recomendação gastronômica, um endereço para comprar perfumes "mais barato que no free-shop", um cantinho para ouvir velhas canções de Edith Piaf e assim por diante.

Por esta razão, o que se lerá, a seguir, é um perfil nada isento de uma cidade nada comum. É uma lista pessoal, como uma lista de feira, onde uns preferem champignon, outros querem xuxu. Um relato onde se verá - é forçoso admitir - uma Paris pessoal, minha, possivelmente pouco em comum com a dos outros. A começar pelos registros históricos. Embora os livros de História, as bibliotecas e as centenas de museus espalhados pelos dois lados do Rio Sena afirmem o contrário, a Paris que trago na cabeça não tem nada a ver com os parisii, que é como se chamavam os membros da tribo celta que se instalou na Île de la Cité por volta de três séculos antes de Cristo. Não resta dúvida de que foi em torno deles que se desenvolveu o vilarejo mais tarde invadido pelos romanos, batizado Lutécia e rebatizado Paris no ano 360 de nossa era. Mas nem isso me convence de que estamos falando da mesma cidade. A que conheço, de velhos almanaques, de livros e pensadores que tanto fizeram a cabeça do Ocidente num passado mais próximo, está mais para o olhar cheio de glamour das bailarinas de cabaré da belle époque do que para o furor guerreiro de reis e imperadores com nomes estranhos, como Childeberto I, Childerico II ou Pepino, o Breve. Está mais para o delírio art nouveau que se percebe em endereços como a entrada da estação de metrô Porte Dauphine do que para a arquitetura tipicamente romana que ainda se vê nas ruínas das Termas de Cluny, no Quartier Latin, de valor histórico muito maior. Está, enfim, mais bem representada pelas fotos em preto-e-branco de Robert Doisneau e Cartier-Bresson do que pela publicação de O Espírito das Leis, de Montesquieu, embora não restem dúvidas quanto à influência desta obra sobre as formas de governo posteriormente adotadas.

É de uma clareza tão transparente quanto os espelhos d´água dos jardins de Luxemburgo que a Paris que realço deriva da Paris que prefiro ignorar. Mas, mesmo sendo apenas o número 162 352 439 na lista de visitantes do Torre Eiffel, não abdico do direito de fantasiar que Paris tenha sido descoberta, de fato, no século 19, avistada pela primeira vez por uma expedição de pintores impressionistas. Pourquoi pas? Afinal foram Monet, Toulouse Lautrec e Degas, entre outros, os primeiros a levar os cavaletes para a rua e captar ajoie de vivre (alegria de viver) de Paris. Antes disso, a capital da França era apenas uma grande cidade européia, com algumas construções interessantes e milhares de miseráveis (lembram-se de Victor Hugo?) nas ruelas estreitas e mal-cheirosas próximas ao Sena. Mas, afora derrubar a Bastilha, o povo ainda não tinha conquistado sequer um sistema de esgotos. Foi o autoproclamado imperador Napoleão III, sobrinho de Bonaparte, o responsável pela grande metamorfose de Paris, a partir de 1852. Ele investiu seus quase vinte anos de poder na transformação de Paris em mais bela e imponente capital da Europa, nomeando o Barão Haussmann para redesenhar a cidade. Missão aliás executada com grande competência pelo austero aristocrata, que se cercou de grandes arquitetos para demolir vielas sujas e, sobre seus despojos, erguer os amplos bulevares e os espaços geometricamente ordenados que se vê na Paris de hoje.

Esses espaços, com fartura de horizontes incomum em grandes cidades, são itens primordiais de minha lista. Eles estão dos dois lados do Sena. A esquerda, onde fica o Champ de Mars, local de exposição mundial de 1889, da qual sobrou para a cidade a então controvertida Torre Eiffel. Com um pouco de imaginação pode-se ver Santos Dumont desafiando a gravidade num equipamento desajeitado e a multidão de parisienses que, até hoje. ocupa a área nos dias ensolarados de primavera. Já na rive droite, todas as paisagens começam na Place de l´Étoile (Praça da Estrela), assim chamada porque dela saem doze avenidas formando uma espécie de núcleo da teia de ruas e bairros que se teceu ao redor. Sem a Étoile não haveria, por exemplo, a elegância da Avenue Foch, a mais larga da cidade, com 120 metros de pista e jardins margeados por hotéis particuliers (mansões) de reis, xeques, astros e capitães de indústria. Nem o eixo monumental da cidade. Aquele que começa no Louvre, passa pelas pirâmides construídas pelo arquiteto chinês I. M. Pei na Place du Carousel, pelo pequeno e belo Arco do Carousel, cruza o obelisco egípcio de 33 décadas da Place de la Concorde, sobe a Champs Elysées (que ainda mantém o título de avenida mais imponente da Terra), atinge o Arco do Triunfo e avança para noroeste até o impressionante Grande Arco de la Défense, sob cujo gigantesco vão poderia passar uma Notre Dame inteira. Mas o melhor da Étoile é a deliciosa confusão que se observa quando carros vindos de doze direções diferentes se encontram, os motoristas xingando e bufando em busca de uma saída diferente, rumo a outros bairros da cidade. Solene, no meio da bagunça, o Arco do Triunfo é testemunha desse pastelão diário. O Arco, que foi prometido por Napoleão aos seus soldados depois da vitória na Batalha de Austerlitz - e que só ficou pronto em 1836 -, já teve dias mais gloriosos, durante os desfiles das tropas que venceram as duas guerras mundiais. Mas também já testemunhou a euforia de invasores, como Hitler, que, entre setembro de 1941 e agosto de 1944, ocupou a cidade, num episódio do qual os franceses não gostam de falar, visto que não é fácil distinguir, até hoje, quem resistiu e quem colaborou com o Exército nazista.

Voltando à Haussmann, agora merecido nome de um bulevar, seu projeto deu viabilidade à estrutura da cidade, baseada em vinte arrondissements (bairros), até hoje com administração independente, sob a supervisão de um prefeito geral. Eles formam uma espécie de círculo, facilmente identificável num mapa, mas dificilmente compreensível para quem não viva por aqui. Ao contrário da outra grande capital do Ocidente, Nova York, onde ninguém fica desorientado, Paris é um ótimo lugar para você se perder. As diagonais afastam-se do eixo assustadoramente. E, apesar da clara vocação para a simetria que se percebe nas construções e nos jardins, do ponto de vista urbanístico, a cidade é um grande quebra-cabeças. Eis por que o melhor é sempre ter um mapa ao alcance da mão e uma clara noção do que se quer fazer.

Outra informação indispensável sobre os arrondissements é que sua numeração segue uma espécie de cronologia histórica. Assim, o primeiro é onde fica a Île de la Cité, avançando pelo Louvre e o Jardim das Tulherias, todos partes da história distante da cidade. O segundo é o prolongamento do primeiro na mesma direção que os antepassados um dia escolheram para expandir o núcleo inicial de ocupação. E assim por diante, até o vigésimo, sendo que os de numeração mais alta foram, um dia, povoados afastados, muitos dos quais ainda conservam um certo ar provinciano, o que não deixa de lhes conferir um charme especial.

A área completa de Paris tem 1 200 quilômetros quadrados, onde dormem 2 milhões e cem mil pessoas. Durante o dia, porém, outros 10 milhões de moradores da região circunvizinha. Chamada Île de France, invadem a capital para ocupar seus postos de trabalho. E essa movimentação só ocorre com certa ordem porque o metrô de Paris é um dos melhores do mundo, com 200 quilômetros de trilhas subterrâneas, 15 linhas e 370 estações, muitas delas tão emaranhadamente interligadas que formam verdadeiras cidades underground. Isso sem contar as composições do RER, linhas mais longas de trens de subúrbio, que na prática invadem a cidade e conectam-se às outras estações, funcionando exatamente como o metrô.

Paris depende tanto do metrô quanto Las Vegas do jogo. Recentemente, uma greve geral dos transportes paralisou a economia parisiense por um mês. Ou pelo menos a maior parte dela, já que os fabricantes de bicicletas e motonetas (o segundo meio de transporte preferido pelos franceses) venderam até o último selim de seus estoques. De toda maneira, se você quer fazer um roteiro para capturar o espírito de Paris, o melhor é andar a pé. Use o metrô para trocar de arrondissement, mas explore cada um deles com o vagar adequado que só as caminhadas proporcionam. É o melhor jeito de descobrir que, além de ícones de identificação imediata - como a Torre Eiffel, o Arco do Triunfo, a Notre Dame e o Louvre, só para citar alguns -, Paris tem uma alma que nem as mais poderosas lentes conseguem captar. Um charme surpreendentemente discreto numa cidade com vocação exibicionista. São pequenos detalhes nas ruas, calçadas, janelas, portas e telhados onde você pode se encantar permanentemente. Seja com a vitrine de uma confeitaria, onde há sempre um destile de tortas e doces bem ornados, seja com o detalhe de uma fachada neoclássica ou com a bicicleta amarrada a um poste na porta de um bistrô. Tudo aqui foi feito para ser visto, não apenas usado. E o desvelo do parisiense com a paisagem de sua cidade é tal que à construção da deselegante Tour de Montparnasse, nos anos 70, quase provocou uma comoção social. O predião de 52 andares é, desde sua inauguração, um estranho no ninho bem-feito de Paris. Modernoso, aparecido, ele comete o pecado supremo de se destacar no horizonte. Por isso, com um toque de ironia de cor tipicamente local, o parisiense garante que a melhor vista da cidade é a que se obtém do alto da Tour de Montparnasse. Pelo simples fato de que aquele é o único lugar da cidade de onde não se vê o malfadado espigão. Paris parece uma exposição permanente. Os parques e jardins possuem canteiros minuciosamente ordenados.

Os parisienses usam trajes elegantes, como se tivessem despencado de uma passarela no Feaubourg Saint Honoré direto nas calçadas bem pavimentadas. Os cafés, com suas cadeiras sempre de frente para a rua, são como vitrines de gente. A diferença é que os itens do mostruário não estão ali apenas para ser vistos, mas também para ver, de modo que, mesmo tomando um capuccino ou comendo um croque monsieur (versão local do misto-quente), o cidadão não perde nada do que acontece na cidade. Graças a essa propensão ao estrelato, é comum ver nas ruas de Paris cenas que, em outras panes, simplesmente não ocorrem. Ou você já viu, em outra cidade, mulheres cujos vestidos combinam com seus cachorros?

O capítulo cachorros, aliás, merece um destaque especial em qualquer análise que se faça sobre Paris, mesmo as parciais e pouco isentas como esta. "As más-línguas - talvez nem tão sem razão - garantem que o bom parisiense gosta mais de seus cães do que de seus filhos. Há milhares deles em todas as ruas. Cães estranhamente comportados, que passam um pelo outro e não se estranham, que usam modelitos exclusivos e acompanham seus donos, sem nenhuma cerimônia, para dentro de lojas, bares ou restaurantes. São, é verdade, quase sempre do tipo cachorro-de-madame, que vêm a ser aqueles espécimes pequenos, cuidadosamente tosqueados, como os bichon frisé ou os mini poodle. Mas há dos grandes também, todos com jeito de quem aprendeu a se comportar numa escola de padres, alguns, até, com ar de quem freqüenta a Sorbonne. Um espetáculo digno de se ver (como, aliás, tudo por aqui), mas que tem, como efeito colateral notável, uma interminável trilha de dejetos nos passeios públicos. Esta observação aparentemente apenas curiosa, na verdade, uma prestação de serviço ao leitor. Afinal, para conhecer Paris é preciso caminhar e você será uma pessoa de muita sorte se voltar de um passeio sem uma pequena lembrança na sola do sapato. Sugere-se evitar os calçados tipo tênis, cujo solado repleto de ranhuras é especialmente inadequado em situações como esta. Ou andar sempre no rastro de uma das muitas máquinas-de-aspirar-cocô, estranhas geringonças verdes colocadas pela prefeitura em lugares movimentados - como a Avenue Champs Elysées, por exemplo - para amenizar a vida dos transeuntes.

A essa altura você já sabe que o parisiense é elegante, exibido e amigo dos cães. Mas certamente já ouviu falar, também, que ele é muito antipático, sobretudo com os turistas. Eis outra afirmação inquestionável, preservadas as exceções. O parisiense médio é tão pouco amigável que só o forte carisma de sua cidade justifica que 20 milhões de turistas voltem a visitá-la ano após ano. A afirmação é corroborada por qualquer um dos milhões de imigrantes que vivem em Paris, inclusive franceses do interior que compartilham desta opinião. Mas não se incomode: não é nada pessoal. "Eles apenas acham que têm o monopólio do savoir-faire" , indigna-se uma francesa de Lion. Savoir-faire significa, literalmente, saber fazer. E os parisienses de fato sabem como se vestir, como andar, como comer, como escolher o vinho ou em que ponto cortar o queijo. O problema é apenas que agem como se ninguém mais soubesse. Experimente entrar num restaurante fino ou num dos grandes hotéis cheios de cristais Baccarat no saguão e distingua o legítimo parisiense. Certamente ele será aquele cujo olhar demonstrará reprovação, seja por seu jeito de andar, por seu traje, por sua maneira de cruzar as pernas ou pelo corte de seu cabelo. Mas não se intimide! Provar dessa estranha mistura de polidez com desagrado pode ser tão valioso, para sua viagem, quanto beber um vinho de boa safra ou ver uma escultura de Rodin. Afinal, tudo é Paris, tudo é espetáculo, tudo éformidable!

Formidable também é o nome do espetáculo que está em cartaz no Moulin Rouge. No final do milênio, o show que comemora o centenário do mais famoso cabaré do mundo parece inocente o suficiente para ser apresentado num culto evangélico. Mas tem o mérito de reviver o período do apogeu da cidade, os anos dourados em que Paris foi a capital de todas as idéias, a meca de todos os exilados, o argumento de todos os escritores e o cenário de todos os artistas. Você provavelmente só conheceu o mundo sob a batuta dos norte-americanos, mas em Paris certamente reencontrará a vocação francesa para ditar regras e estabelecer tendências. Nos seios rigorosamente perfeitos e iguais - como se forjados por um mesmo molde - das dançarinas do Moulin Rouge você terá a evocação de Jane Avril, musa de Toulouse Lautrec, numa época em que pernas à mostra revolucionavam os costumes. Vai ver também as plumas e paetês que. se hoje não impressionam, tiveram, há cem anos, influência marcante no show biz internacional, tendo sido adotadas por dançarinas, cabrochas, colombinas e desvairadas de todas as nacionalidades. E, com um pouco de imaginação, sentirá Maurice Chevalier, Edith Piaf e Josephine Baker no palco, animando uma platéia onde Sartre e Simone de Beauvoir estarão dividindo o champanhe com Trotsky, Picasso, André Gide e Hemingway. Na mesa ao lado, lsadora Duncan e Rodin estarão ouvindo as últimas de Coco Chanel, Godard estará antecipando a sinopse de seu novo filme para uma Brigitte Bardot ainda linda e primaveril e um jovem senhor Cardoso estará contando suas aspirações políticas para um paciente Lévi-Strauss.

Esse é o grand-monde de Paris, hoje menos pluralista, menos influente, mas ainda magnético. Enquanto o presidente Chirac explbde bombas extemporâneas no atol de Mururoa, despertando o ódio do mundo, na sala ao lado alguém planeja a nova temporada da Ópera da Bastilha. uma exposição mundial no Louvre ou um show de Madonna no Palácio Omnisports de Bercy. As obras recentes do ex-presidente Mitterrand - entre as quais o notável Parc de la Villette, o próprio Museu d´Orsay, as pirâmides do Louvre e o Grande Arco de la Défense confirmam que Paris não abdicou da aspiração de ser a eterna capital cultural do mundo. Os desfiles de Gaultier, Delacroix, Lagerfeld e Dior - entre tantos - reforçam a tese de que Paris vai lutar até o fim para continuar sendo o nascedouro das tendências do Ocidente. Mas o rancor xenófobo de Le Pen, o líder dá ultradireita, e o ódio mal contido que o parisiense alimenta em relação aos imigrantes (que a própria França importou quando necessitava de mão-de-obra barata) são sintomas de uma sociedade mais fechada do que o permissível nestes tempos de globalização.

Por isso, ao mesmo tempo que se abre, Paris se guetifica. Se algumas áreas são um convite ao mundo, outras têm se tornado hábitat de minorias. Negros em Barbès. Chineses no Trezième (13º). Homossexuais em parte do Marais. Árabes em Clignancourt. Estudantes e livreiros no Boul´Mich (que é como os franceses apelidaram o Boulevard Saint Michel). Intelectuais em Saint-Germain-de-Près. Boêmios em Montmartre. A alta burguesia no 7º e no 16º. Os estilistas no 8º. Os joalheiros em Place Vendôme. E a moçada invadindo novas áreas, como o Marais e a Bastilha, points da moda, do agito, do frisson.

O parisiense comum, por sua vez, leva adiante seu cotidiano sem fulgor. Nada de badalação, como sugere a cidade, mas a eterna rotina aqui chamada de metrô-bulô-dodô, que significa metrô, escritório e cama. Dessas três etapas, a mais emocionante, sem sombra de dúvidas, é a que envolve o metrô. Se você for a Paris e não tiver ingressos para algum espetáculo na Opera de Garnier ou no Lido, ou no Paradis Latin, não se preocupe. Desça as escadas da estação de metrô mais próxima e prepare-se para um grande show. Há um mundo de artistas anônimos correndo o chapéu nos subterrâneos da cidade. Estrelas de grandeza diversa, que se espalham pelas grandes estações, como a Ópera, Les Halles, Montparnasse ou Etoile, onde as muitas correspondances (encontro de linhas) justificam corredores longos, apinhados de transeuntes. Você pode ouvir uma harpista dedilhando prelúdios de Mozart e jurar que ela deveria estar de frente para Zubin Mehta no Carneggie Hall. Ou pode escutar um desafinado saxofonista fazendo Louis Armstrong estremecer em sua cova. Se você jogar uma moeda de 10 francos, qualquer coisa pode acontecer dentro do metrô.

Um grande barato são os shows relâmpagos que acontecem no interior dos vagões. Fulano entra no seu carro na estação George V, monta um palco de pano entre duas barras originalmente concebidas para apoio dos passageiros, arruma - sabe-se lá de onde - um tocafitas tailandês e apresenta um microespetáculo de marionetes. Quando o trem se aproxima da estação Franklin Roosevelt, o show já terminou, o chapéu está sendo corrido e a performance se repetirá na próxima composição que parar.

Dá para passar um dia inteiro fuçando o submundo artístico de Paris pelo preço de uma passagem - e essa não deixa de ser uma sugestão para um dia de chuva. Mas, à noite, é prudente evitar o metrô, especialmente nas estações mais afastadas. É a hora dos trombadões, dos batedores de carteiras, dos skinheads ou, simplesmente, dos loucos. E como há loucos em Paris! Pode-se vê-los falando sozinhos no Quai des Orfèvres, bem embaixo da sede da Polícia, lugar onde supostamente trabalhava o Inspetor Maigret, de Georges Simenon. Ou lá em cima, em Montmartre, misturados à malta de artistas e pseudo-artistas que mendigam a chance de retratar os turistas a carvão em troca de um punhado de francos. Mas a loucura, todos sabemos, é mal de cidade grande. Ainda mais uma cidade com vocação etílica como Paris, onde o vinho é bom e barato, há um bistrô-à-vin em cada esquina e algumas caves, como a do restaurante Tour d´Argent, acumulam 500 mil garrafas, com 9 mil referências diferentes.

De um Chateau Citron de 1858 a um Romanet Conti, de 1945, que custa 39 mil francos (perto de 8 mil reais), a cave do antipaticíssimo - mas reverenciado - Claude Terrail tem qualquer exemplar que você pedir (exceto o nosso Sangue de Boi, ainda inédito por aqui). Da mesma forma, a cave do fromageur (queijeiro, com o perdão da má palavra) Androuet, na Rue de Amsterdam, em Montmartre, acumula 2 800 queijos diferentes ao mesmo tempo, que variam entre pares molles croutes fleuries e pares pressés, seguindo uma classificação que você vai levar anos para entender, mas segundos para apreciar.

Comer em Paris é, enfim, um delírio e, nesse particular, os franceses mantêm-se vários corpos à frente do resto dos seres civilizados. A culinária francesa só encontra rivais, em prestígio, no ramo da perfumaria, item predileto dos shopping-turistas que vão à cidade. Há milhares de aromas engarrafados nas lojas da capital e, com a momentânea vantagem cambial, as brasileiras são grandes consumidoras nesse mercado. Na loja Licia, da Avenue de Wagram, onde se vende a impensável quantidade de 1 milhão de litros de perfume por ano, uma deputada brasileira (cujo nome nos foi omitido por motivos óbvios) gastou 30 mil dólares em recente viagem. Se ela vai ser reeleita não se sabe. Mas o seu diploma de congressista mais vaporosa da nação não será cassado pelo menos até que o estoque termine. E mesmo que isso ocorra, bastará a ela pegar um avião, aguardar dez horas a bordo e iniciar um novo roteiro por Paris. Que certamente será diferente deste que sugeri, o que de fato não importa, porque, como já foi dito, Paris é uma cidade para cada um. Ou, se você preferir, a cidade de todos, que cada um leva na alma do jeito que achar melhor.

ÎLE DE LA CITÉ E ÎLE SAINT-LOUIS É: o mais charmoso par de ilhas urbanas do planeta. Aqui nasceu Lutécia, que virou Paris. A Cité é História em estado bruto e na Saint-Louis estão algumas das residências mais sofisticadas do continente europeu. Passeio indispensável.

MONTMARTRE E O 17º 18º e 19º ARRONDISSEMENTS - Rue des Martyrs É: a região norte de Paris, que, à exceção de Montmartre, o turista comum não costumava visitar. Mas, desde a criação do Paro de la Villette no 19º, a área faz parte do roteiro obrigatório de quem viaja à capital da França.

16º E 17º ARRONDISSEMENTS - Avenue Foch - São os deliciosos bairros que ficam ao redor do Arco do Triunfo, descem até as margens do Sena e avançam pelo Bois de Boulogne, principal área verde da cidade.

7º ARRONDISSEMENT - Boulevard des Invalides - É: provavelmente o arrondissement mais chique de Paris, na margem esquerda do Sena. Seu centro geográfico é a esplanada dos Invalides. Nos limites, o Quartier Latin e a Torre Eiffel. Precisa mais?

QUARTIER LATIN 5º E 6º ARRONDISSEMENTS - Place Saint-Germain-des-Prés É: a Paris dos intelectuais, dos libertários, dos incendiários; o quase mitológico Quartier Latin, que avança pela rive gauche, o lado esquerdo, sempre esquerdo, da Cidade-Luz.

MARAIS 3º E 4º ARRONDISSEMENTS - Place des Vosges É: antigo pântano de Paris, incorporado à cidade a partir do século 14. O apogeu da área ocorreu no século 17, seguido por uma grande decadência. Agora, o Marais está de novo em ascensão. Um paraíso de ruelas com as melhores galerias de arte da cidade.

8º ARRONDISSEMENT - Rue Pierre Charron É: o bairro do glamour, de onde partem as tendências da moda no mundo. Aqui ficam todas as grifos de que você já ouviu falar, o governo da França, as melhores lojas de comida e os escritórios chiques. "Tudo é luxo, calma e volúpia", disse Baudelaire, referindo-se a estes quarteirões.

2º ARRONDISSEMENT - Rue Saint Augustin É: o bairro das finanças e da Imprensa, com muitos negócios e alguns poucos lugares charmosos, que valem a pena conhecer.

TULHERIAS É: a grande área na margem direita do Sena (rive droite) que vai da Place de la Concorde à Rue do Louvre, cuja referência básica é o Museu do Louvre.

9º ARRONDISSEMENT É: um bairro central, onde fica a Opera de Garnier (que acabou de ser reaberta) e, sobretudo, os grandes magazines de Paris.

MONTPARNASSE 13º, 14º e 15º - Avenue de La Motte-Picquet É: um trecho de bairros outrora longínquos e bucólicos, hoje definitivamente integrados a Paris e, em alguns pontos, descaracterizados. Aqui fica a grande Tour de Montparnasse, um prédio alto tão fora da realidade da cidade que, segundo os franceses, é de cima dele que se obtêm as melhores fotos de Paris. Por quê? Porque só assim é garantido que a Tour não apareça na imagem.

11º e 12º ARRONDISSEMENTS É: uma grande área conhecida como quartiers populaires, região tradicionalmente proletária de Paris, hoje em grande ascensão junto ao parisiense médio. Aqui ficava a Bastilha, que, como você sabe, caiu em 1789.

A comida em Paris é quase sempre irresistível. Difícil é escolher entre tantas opções. Na dúvida, experimente um pouco de tudo.

Lembre-se de tudo o que você já ouviu falar sobre a culinária francesa: é pura verdade. Em Paris, quase ninguém come apenas para se alimentar. Almoços e jantares são dedicados rituais que podem se estender por horas, do hors-d´oeuvre até a sobremesa, passando, claro, pela tábua de queijos e pelo vinho obrigatório. Como em qualquer cidade, também há lugares em que se come mal em Paris. Mas o risco é pequeno: em quase todos os restaurantes e brasseries, os pratos são apetitosos e bem decorados. Ao contrário do que reza a lenda, as porções são generosas, sem desperdício. Dificilmente você sai de um restaurante com a sensação de que comeu pouco ou exagerou. Esse talento todo, porém, não justifica que o serviço seja ruim ou arrogante como em algumas casas ditas finas. Reclame, se for o caso. Nos restaurantes mais famosos, não se esqueça de fazer uma reserva antecipada.

Vá: ao La Défense, o pedaço nova-iorquino de Paris. Você sai do metrô e está, de repente, no meio de Manhattan, rodeado de arranha-céus envidraçados, com arquitetura arrojada. Não deixe de se admirar com o Grande Arche de La Défense. Mas não gaste seu dinheiro para subir até o mirante (de 106 metros de altura), porque o ângulo de visão é limitado e infeliz.

A primavera é a melhor época do ano para visitar Paris. É quando acontecem as grandes feiras e concertos. A temperatura fica ao redor dos 16 graus em média e os dias já são longos o suficiente para você não achar que esta perdendo nada. "April in Paris", como canta Ella Fitzgerald é uma grande pedida.

Depende do tipo de viagem que você quer fazer. Paris aceita tênis-e-mochila, mas é mais generosa com quem usa terno e gravata. Evite tentar parecer na moda para que os parisienses não lhe lancem um olhar de desprezo. O melhor é ser discreto e levar uma capa, porque pode chover nessa época do ano. De resto, veja como se vestem os parisienses e entenda por que eles ditam as tendências da moda mundial.

TRANSPORTE IDEAL De longe, o metrô. Com 370 estações, não existe um único lugar da cidade que fica a mais de 500 metros de uma estação. A noite, prefira o táxi, que é mais seguro. Se você quiser passear em grande estilo, alugue uma limousine com motorista. Fale com o simpático Frédéric Fontana no tel.: 47 59 9915.

Paris é um caso especial. Fique o máximo possível. Cada dia que você ganhar nesta cidade vai representar a oportunidade de conhecer ângulos novos e inesperados. De toda maneira, menos que três dias é um desperdício. Cinco já dá para ver alguma coisa. E uma semana é um bom começo de paixão.

Esqueça os Estados Unidos, nosso paraíso de compras, onde tudo parece de graça. Em Paris, a vida é cara, eletrônicos nem pensar, e roupas, só as que você achar muito especiais. O bom para trazer daqui são perfumes ee cristais. Peça u desconto ou uma détax, que lhe garante a devolução de 20% de impostos ao deixar a França.

Para se dar bem em Paris, evite reclamar de cigarros (quase todo mundo fuma em qualquer lugar). Evite vestir-se inadequadamente, não tenha medo de cachorros e, sobretudo, não peça carne bem passada. Para os franceses, a boa carne vem sempre sangrando.

Informações para turistas você obtém no tel.: 49 52 53 54. Se você quer saber o que está rolando de eventos na cidade, compre o Pariscape, que sai todas as quartas, ou ouça a programação gravada. Em inglês, no tel.: 4952 53 56; e em francês, no tel.: 49525355. Esse serviço funciona vinte e quatro horas.

 

 

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